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CARTA DE NIZHNY TAGIL SOBRE O PATRIMÓNIO INDUSTRIAL
Posted on Saturday, July 21 @ 22:39:36 BRT
Topic:
Foi publicado no site do TICCIH internacional a versão em português da

CARTA DE NIZHNY TAGIL SOBRE O PATRIMÔNIO INDUSTRIAL


The International Committee for the Conservation of the Industrial Heritage (TICCIH)
Julho 2003

Fonte:
http://www.mnactec.com/TICCIH/


CARTA DE NIZHNY TAGIL SOBRE O PATRIMÔNIO INDUSTRIAL

The International Committee for the Conservation of the Industrial Heritage (TICCIH)
Julho 2003

O TICCIH – The International Committee for the Conservation of the Industrial Heritage (Comissão Internacional para a Conservação do Patrim?nio Industrial) ? a organização mundial consagrada ao patrim?nio industrial, sendo tamb?m o consultor especial do ICOMOS para esta categoria de patrim?nio. O texto desta Carta sobre o Patrim?nio Industrial foi aprovado pelos delegados reunidos na Assembleia Geral do TICCIH, de car?cter trienal, que se realizou em Nizhny Tagil em 17 de Julho de 2003, o qual foi posteriormente apresentado ao ICOMOS para ratificação e eventual aprovação definitiva pela UNESCO

Preâmbulo

Os per?odos mais antigos da hist?ria da Humanidade são definem-se atrav?s dos vest?gios arqueol?gicos que testemunharam mudanças fundamentais nos processos de fabrico de objectos da vida quotidiana, e a importância da conservação e do estudo dos testemunhos dessas mudanças ? universalmente aceite.

Desenvolvidas a partir da Idade M?dia na Europa, as inovações na utilização da energia assim como no com?rcio conduziram, nos finais do s?culo XVIII, a mudanças tão profundas como as que ocorreram entre o Neol?tico e a Idade do Bronze. Estas mudanças geraram evoluções sociais, t?cnicas e econ?micas das condições de produção, suficientemente r?pidas e profundas para que se fale da ocorrência de uma Revolução. A Revolução Industrial constituiu o in?cio de um fen?meno hist?rico que marcou profundamente uma grande parte da Humanidade, assim como todas as outras formas de vida existente no nosso planeta, o qual se prolonga at? aos nossos dias.

Os vest?gios materiais destas profundas mudanças apresentam um valor humano universal e a importância do seu estudo e da sua conservação deve ser reconhecida.

Os delegados reunidos na R?ssia por ocasião da Conferência 2003 do TICCIH desejam, por conseguinte, afirmar que os edif?cios e as estruturas constru?das para as actividades industriais, os processos e os utens?lios utilizados, as localidades e as paisagens nas quais se localizavam, assim como todas as outras manifestações, tang?veis e intang?veis, são de uma importância fundamental. Todos eles devem ser estudados, a sua hist?ria deve ser ensinada, a sua finalidade e o seu significado devem ser explorados e clarificados a fim de serem dados a conhecer ao grande p?blico. Para al?m disso, os exemplos mais significativos e caracter?sticos devem ser inventariados, protegidos e conservados, de acordo com o esp?rito da carta de Veneza, para uso e benef?cio do presente e do futuro. (1)


(1) A Carta do Patrim?nio Industrial dever? incluir as importantes Cartas anteriores, como a Carta de Veneza (1964) e a Carta de Burra (1994), assim como a Recomendação R(90) 20 do Conselho da Europa.

1. Definição de patrim?nio industrial

O patrim?nio industrial compreende os vest?gios da cultura industrial que possuem valor hist?rico, tecnol?gico, social, arquitect?nico ou cient?fico. Estes vest?gios englobam edif?cios e maquinaria, oficinas, f?bricas, minas e locais de processamento e de refinação, entrepostos e armaz?ns, centros de produção, transmissão e utilização de energia, meios de transporte e todas as suas estruturas e infra-estruturas, assim como os locais onde se desenvolveram actividades sociais relacionadas com a ind?stria, tais como habitações, locais de culto ou de educação.

A arqueologia industrial ? um m?todo interdisciplinar que estuda todos os vest?gios, materiais e imateriais, os documentos, os artefactos, a estratigrafia e as estruturas, as implantações humanas e as paisagens naturais e urbanas(2), criadas para ou por processos industriais. A arqueologia industrial utiliza os m?todos de investigação mais adequados para aumentar a compreensão do passado e do presente industrial.

O per?odo hist?rico de maior relevo para este estudo estende-se desde os in?cios da Revolução Industrial, a partir da segunda metade do s?culo XVIII, at? aos nossos dias, sem negligenciar as suas ra?zes pr? e proto-industriais. Para al?m disso, apoia-se no estudo das t?cnicas de produção, englobadas pela hist?ria da tecnologia.

(2) Para facilitar a compreensão, a palavra “s?tios” ser? utilizada para referir as paisagens, instalações, edif?cios, estruturas e maquinaria, excepto quando estes termos forem utilizados num sentido mais espec?fico.

2. Valores do patrim?nio industrial

i. O patrim?nio industrial representa o testemunho de actividades que tiveram e que ainda têm profundas consequências hist?ricas. As razões que justificam a protecção do patrim?nio industrial decorrem essencialmente do valor universal daquela caracter?stica, e não da singularidade de quaisquer s?tios excepcionais.

ii. O patrim?nio industrial reveste um valor social como parte do registo de vida dos homens e mulheres comuns e, como tal, confere-lhes um importante sentimento identit?rio. Na hist?ria da ind?stria, da engenharia, da construção, o patrim?nio industrial apresenta um valor cient?fico e tecnol?gico, para al?m de poder tamb?m apresentar um valor est?tico, pela qualidade da sua arquitectura, do seu design ou da sua concepção.

iii. Estes valores são intr?nsecos aos pr?prios s?tios industriais, às suas estruturas, aos seus elementos constitutivos, à sua maquinaria, à sua paisagem industrial, à sua documentação e tamb?m aos registos intang?veis contidos na mem?ria dos homens e das suas tradições.

iv. A raridade, em termos de sobrevivência de processos espec?ficos de produção, de tipologias de s?tios ou de paisagens, acrescenta-lhes um valor particular e devem ser cuidadosamente avaliada. Os exemplos mais antigos, ou pioneiros, apresentam um valor especial.

3. A importância da identificação, do invent?rio e da investigação

i. Todas as colectividades territoriais devem identificar, inventariar e proteger os vest?gios industriais que pretendem preservar para as gerações futuras.

ii. Os levantamentos de campo e a elaboração de tipologias industriais devem permitir conhecer a amplitude do patrim?nio industrial. Utilizando estas informações, devem ser realizados invent?rios de todos os s?tios identificados, os quais devem ser concebidos de forma a proporcionarem uma pesquisa f?cil e um acesso livre por parte do p?blico. A informatização e o acesso on-line na Internet constituem objectivos importantes.

iii. O invent?rio constitui uma componente fundamental do estudo do patrim?nio industrial. O invent?rio completo das caracter?sticas f?sicas e das condições de um s?tio deve ser realizado e conservado num arquivo p?blico, antes de se realizar qualquer intervenção. Muitas informações podem ser obtidas se o invent?rio for efectuado antes do abandono da utilização de um determinado processo industrial ou do fim da actividade
produtiva de um s?tio. Os invent?rios devem incluir descrições, desenhos, fotografias, e um registo em v?deo do referido s?tio industrial ainda em funcionamento, com as referências das fontes documentais existentes. As memorias das pessoas que a? trabalharam constituem uma fonte ?nica e insubstitu?vel e devem ser tamb?m registadas e conservadas, sempre que poss?vel.

iv. A investigação arqueol?gica dos s?tios industriais hist?ricos constitui uma t?cnica fundamental para o seu estudo. Ela deve ser realizada com o mesmo n?vel de elevado rigor com que se aplica no estudo de outros per?odos hist?ricos.

v. São necess?rios programas de investigação hist?rica para fundamentar as politicas de protecção do patrim?nio industrial. Devido à interdependência de numerosas actividades industriais, uma perspectiva internacional pode auxiliar na identificação dos s?tios e dos tipos de s?tios de importância mundial.

vi. Os crit?rios de avaliação de instalações industriais devem ser definidos e publicados a fim de que o p?blico possa tomar conhecimento de normas racionais e coerentes. Com base numa investigação apropriada, estes crit?rios devem ser utilizados para identificar os mais significativos vest?gios de paisagens, complexos industriais, s?tios, tipologias de implantação, edif?cios, estruturas, m?quinas e processos industriais mais significativos.

vii. Os s?tios e estruturas de reconhecida importância patrimonial devem ser protegidos por medidas legais suficientemente s?lidas para assegurarem a sua conservação. A Lista do Patrim?nio Mundial da UNESCO dever? prestar o leg?timo reconhecimento ao enorme impacto que a industrialização teve na cultura da Humanidade.

viii. Deve ser definido o valor dos s?tios mais significativos assim como estabelecidas directivas para futuras intervenções. Devem ser postas em pr?tica medidas legais, administrativas e financeiras, necess?rias para conservar a sua autenticidade.

ix. Os s?tios ameaçados devem ser identificados a fim de que possam ser tomadas as medidas apropriadas para reduzir esse risco e facilitar eventuais projectos de restauro e de reutilização.

x. A cooperação internacional constitui uma perspectiva particularmente favor?vel para a conservação do patrim?nio industrial, nomeadamente atrav?s de iniciativas coordenadas e partilha de recursos. Devem ser elaborados crit?rios compat?veis para compilar invent?rios e bases de dados internacionais.

4. Protecção legal

i. O patrim?nio industrial deve ser considerado como uma parte integrante do patrim?nio cultural em geral. Contudo, a sua protecção legal deve ter em consideração a sua natureza espec?fica. Ela deve ser capaz de proteger as f?bricas e as suas m?quinas, os seus elementos subterrâneos e as suas estruturas no solo, os complexos e os conjuntos de edif?cios, assim como as paisagens industriais. As ?reas de res?duos industriais, assim como as ru?nas, devem ser protegidas, tanto pelo seu potencial arqueol?gico como pelo seu valor ecol?gico.

ii. Programas para a conservação do patrim?nio industrial devem ser integrados nas politicas econ?micas de desenvolvimento assim como na planificação regional e nacional.

iii. Os s?tios mais importantes devem ser integralmente protegidos e não deve ser autorizada nenhuma intervenção que comprometa a sua integridade hist?rica ou a autenticidade da sua construção. A adaptação coerente, assim como a reutilização, podem constituir formas apropriadas e econ?micas de assegurar a sobrevivência de edif?cios industriais, e devem ser encorajadas mediante controles legais apropriados, conselhos t?cnicos, subvenções e incentivos fiscais.

iv. As comunidades industriais que estão ameaçadas por r?pidas mudanças estruturais devem ser apoiadas pelas autoridades locais e governamentais. Devem ser previstas potenciais ameaças ao patrim?nio industrial decorrentes destas mudanças, e preparar planos para evitar o recurso a medidas de emergência.

v. Devem ser estabelecidos procedimentos para responder rapidamente ao encerramento de s?tios industriais importantes, a fim de prevenir a remoção ou a destruição dos seus elementos significativos. Em caso necess?rio, as autoridades competentes devem dispor de poderes legais para intervir quando for necess?rio, a fim de protegerem s?tios ameaçados.

vi. Os governos devem dispor de organismos de consulta especializados que possam proporcionar pareceres independentes sobre as questões relativas à protecção e conservação do patrim?nio industrial, os quais devem ser consultados em todos os casos importantes.

vii. Devem ser desenvolvidos todos os esforços para assegurar a consulta e a participação das comunidades locais na protecção e conservação do seu patrim?nio industrial.

viii. As associações e os grupos de volunt?rios desempenham um papel importante na inventariação
dos s?tios, promovendo a participação p?blica na sua conservação, difundindo a informação e a investigação, e como tal constituem parceiros indispens?veis no dom?nio do patrim?nio industrial.

5. Manutenção e conservação

i. A conservação do patrim?nio industrial depende da preservação da sua integridade funcional, e as intervenções realizadas num s?tio industrial devem, tanto quanto poss?vel, visar a manutenção desta integridade. O valor e a autenticidade de um s?tio industrial podem ser fortemente reduzidos se a maquinaria ou componentes essenciais forem retirados, ou se os elementos secund?rios que fazem parte do conjunto forem destru?dos.

ii. A conservação dos s?tios industriais requer um conhecimento profundo do objectivo ou objectivos para os quais foram constru?dos, assim como dos diferentes processos industriais que se puderam ali desenvolver. Estes podem ter mudado com o tempo, mas todas as antigas utilizações devem ser investigadas e avaliadas.

iii. A conservação in situ deve considerar-se sempre como priorit?ria. O desmantelamento e a deslocação de um edif?cio ou de uma estrutura s? serão aceit?veis se a sua destruição for exigida por imperiosas necessidades sociais ou econ?micas.

iv. A adaptação de um s?tio industrial a uma nova utilização como forma de se assegurar a sua conservação ? em geral aceit?vel salvo no caso de s?tios com uma particular importância hist?rica. As novas utilizações devem respeitar o material espec?fico e os esquemas originais de circulação e de produção, sendo tanto quanto poss?vel compat?veis com a sua anterior utilização. ? recomend?vel uma adaptação que evoque a sua antiga actividade.

v. Adaptar e continuar a utilizar edif?cios industriais evita o desperd?cio de energia e contribui para o desenvolvimento econ?mico sustentado. O patrim?nio industrial pode desempenhar um papel importante na regeneração econ?mica de regiões deprimidas ou em decl?nio. A continuidade que esta reutilização implica pode proporcionar um equil?brio psicol?gico às comunidades confrontadas com a perda s?bita de uma fonte de trabalho de muitos anos.

vi. As intervenções realizadas nos s?tios industriais devem ser revers?veis e provocar um impacto m?nimo. Todas as alterações inevit?veis devem ser registadas e os elementos significativos que se eliminem devem ser inventariados e armazenados num local seguro. Numerosos processos industriais conferem um cunho
espec?fico que impregna o s?tio e do qual resulta todo o seu interesse.

vii. A reconstrução, ou o retorno a um estado anteriormente conhecido, dever? ser considerada como uma intervenção excepcional que s? ser? apropriada se contribuir para o reforço da integridade do s?tio no seu conjunto, ou no caso da destruição violenta de um s?tio importante.

viii. Os conhecimentos que envolvem numerosos processos industriais, antigos ou obsoletos, constituem fontes de importância capital cuja perda poder? ser insubstitu?vel. Devem ser cuidadosamente registados e transmitidos às novas gerações.

ix. Deve promover-se a preservação de registos documentais, arquivos empresariais, plantas de edif?cios, assim como exemplares de produtos industriais.

6. Educação e formação

i. Uma formação profissional especializada, abordando os aspectos metodol?gicos, te?ricos e hist?ricos do patrim?nio industrial deve ser ministrada no ensino t?cnico e universit?rio.

ii. Devem ser elaborados materiais pedag?gicos espec?ficos abordando o passado industrial e o seu patrim?nio para os alunos dos n?veis prim?rio e secund?rio.

7. Apresentação e interpretação

i. O interesse e a dedicação do p?blico pelo patrim?nio industrial e a apreciação do seu valor constituem os meios mais seguros para assegurar a sua preservação. As autoridades p?blicas devem explicar activamente o significado e o valor dos s?tios industriais atrav?s de publicações, exposições, programas de televisão, Internet e outros meios de comunicação, proporcionando o acesso permanente aos s?tios importantes e promovendo o turismo nas regiões industriais.

ii. Os museus industriais e t?cnicos, assim como os s?tios industriais preservados, constituem meios importantes de protecção e interpretação do patrim?nio industrial.

iii. Os itiner?rios regionais e internacionais do patrim?nio industrial podem esclarecer as cont?nuas transferências de tecnologia industrial e o movimento em larga escala das pessoas que as mesmas podem ter provocado, promovendo um afluxo do p?blico interessado em
conhecer uma nova perspectiva do patrim?nio industrial.

Nizhny Tagil, 17 de Julho de 2003


 
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